Quarta-feira, 01 de julho de 2026

Quarta-feira, 01 de julho de 2026

Voto divergente do ministro Fux cria incômodo entre ministros da Primeira Turma do Supremo em julgamento sobre a trama golpista

Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) não disfarçaram o incômodo diante do voto divergente de Luiz Fux durante o julgamento da trama golpista na quarta-feira (10), que defendeu a absolvição do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Reservadamente, um ministro disse que o conteúdo não chegou a surpreendê-lo diante dos sinais que Fux vinha dando nos últimos meses, mas reclamou do tempo que ele levou para concluir a sua exposição. O voto durou mais de dez horas.

Ministros, no entanto, apontaram que havia incongruências no voto, já que ele defendeu a condenação do tenente-coronel Mauro Cid, mas absolveu Bolsonaro e Almir Garnier, que foi comandante da Marinha. “Como Cid poderia dar um golpe sem a Marinha e sem o presidente?”, questionou um magistrado.

Também afirmaram que a manifestação de Fux, que não viu provas para condenar Bolsonaro, insuflaram a militância, o que fez aumentar os ataques contra os ministros nas redes sociais. No meio da tarde de quarta, o ministro Flávio Dino pediu para que a Polícia Federal investigasse as ameaças.

Na maior parte do tempo, o clima no plenário da Primeira Turma foi de desconforto. Os ministros Alexandre de Moraes, relator do caso, e Cármen Lúcia ficaram quase toda a sessão inclinados sobre seus computadores, de cabeça baixa.

Durante o dia, Moraes chegou a proferir decisões. Em uma delas, autorizou Bolsonaro a deixar a sua residência, onde cumpre prisão domiciliar, para realizar um procedimento médico neste domingo (14).

Já Dino passou a maior parte do tempo fazendo anotações, com algumas olhadelas no celular. O único que manteve contato visual com Fux enquanto o ministro votava foi Cristiano Zanin, presidente do colegiado.

Os colegas assistiram mudos às declarações do ministro. Isso porque Fux pediu para não ser interrompido enquanto votava, o que não é usual. Um deles disse que Fux não quis ser rebatido sobre as divergências apresentadas. Outro, que a solicitação é “coisa de quem está inseguro”.

Reservadamente, um integrante do colegiado ironizou a postura de Fux e disse que ficou com medo de ele pedir a condenação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que foi o autor da denúncia.

Também apontou que o ministro foi mais incisivo que os advogados dos réus. Já no início da sua manifestação, Fux reforçou um argumento muito utilizado pelas defesas: que não houve tempo hábil para analisar as “bilhões de páginas” do caso.

Para um outro ministro, o colega “inovou” ao falar em cerceamento de defesa. Ele lembrou também que em “centenas” de processos sobre o 8 de Janeiro Fux acompanhou Moraes, “inclusive nas penas” impostas aos acusados.

O voto de Fux consolidou a postura mais “garantista” que ele passou a adotar ao longo da tramitação da ação da trama golpista e deixou no passado o tom “punitivista” que marcou a sua atuação nos casos da Operação Lava-Jato.

O ministro costumava adotar posições mais duras em matéria penal e ser menos legalista em relação aos direitos dos réus, o que lhe valeu a alcunha de “lavajatista”.

Um dos momentos que marcaram essa inflexão aconteceu em março, quando Fux pediu vista no caso da cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, que pichou a frase “Perdeu, mané” na estátua “A Justiça”, que fica em frente ao prédio do Supremo. Ao votar no caso, ele defendeu uma pena de 1 ano e 6 meses contra a acusada, que, no fim, foi condenada a 14 anos de prisão.

Nos últimos meses, porém, o ministro tornou-se o principal contraponto em relação a Moraes. Ele mencionou o assunto ao votar. “Eu ingressei fundo (na ação da trama golpista) e disse isso ao ministro Alexandre. Nós temos dissenso, não temos discórdia. Nós somos amigos.” (Com informações do Valor Econômico)

Voltar

Compartilhe esta notícia:

Primeira Turma do Supremo mantém validade da delação de Cid por unanimidade
Ministro do Supremo Cristiano Zanin refuta tese que costumava evocar quando era advogado de Lula
Ocultar
Fechar
Clique no botão acima para ouvir ao vivo
Volume

No Ar: Programa Músicas Do Sul