Sexta-feira, 03 de julho de 2026

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O projeto de redução da jornada de trabalho no Brasil, se aprovado pelo Congresso, deverá elevar o custo da hora trabalhada para as empresas

A mudança da jornada de trabalho no Brasil esbarra em um grande desafio: caso o País queira acabar com o modelo 6×1 (seis dias de trabalho por um de folga) e adotar o 5×2 (cinco dias de trabalho de trabalho e duas folgas), sem redução salarial, terá de melhorar a produtividade do trabalho. Sem melhorar a eficiência, não será possível compensar o aumento do custo do trabalho por hora – o que elevaria o custo de produção e seria um grande problema para as contas das empresas e para a economia do País.

Quando se olha o histórico brasileiro, é uma equação que pode ser difícil de ser endereçada. Afinal, a produtividade brasileira cresceu muito pouco nas últimas décadas. O tema da redução de jornada de trabalho é global e, nos locais em que prosperou sem grandes impactos para o dia a dia das empresas, o ganho de produtividade foi peça-chave.

A proposta de mexer na jornada de trabalho é uma das bandeiras da campanha de reeleição do presidente Lula e, com a proximidade da eleição, ganhou tração no Congresso. Para os empresários, há temor de perda de competitividade, pressão sobre as margens e incerteza em relação à capacidade de manter o nível de produção. Entidades do setor industrial apontam ‘graves prejuízos à economia’ se ocorrer alguma alteração na jornada de trabalho e falam em prejuízos bilionários.

Ao longo das últimas décadas, o Brasil tem tido dificuldade para melhorar a produtividade do seu trabalhador. Isso não quer dizer que o brasileiro trabalhe poucas horas. O que ocorre é que o trabalhador não conseguiu aumentar o quanto produz de forma significativa, mesmo com todas as mudanças tecnológicas vividas pela economia global.

Para ter ideia, em 1981, o brasileira produzia R$ 33,2 por hora, segundo levantamento do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, ligado ao Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre). Em 2024, mais de 40 anos depois, esse valor cresceu pouco. O trabalhador produzia R$ 42,4, a valores de 2021.

“A produtividade brasileira está estagnada desde a década de 80. Cresce muito pouco. É muito difícil acreditar que a gente vai trabalhar menos horas e a produtividade vai explodir para compensar (a redução das horas trabalhadas)”, afirma Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV/Ibre.

“A mudança da jornada vai ter algum impacto e, se a sociedade achar que vale a pena, ótimo. Mas não vamos afirmar que o custo é zero”, acrescenta.

São vários os fatores que explicam o lento crescimento da produtividade no Brasil. Eles passam pela má qualidade da educação, pela insegurança jurídica, por políticas industriais ineficientes, entre outros. Acelerar esse crescimento é importante porque as nações que conseguiram enriquecer foram aquelas que construíram economias mais produtivas.

“Na era da IA, o desafio é outro: habilidades. É preciso treinar desde o jovem, que está na escola, até o seu pai, hoje empregado, a desenvolver novas habilidades para desempenhar funções cada vez mais digitalizadas”, diz o economista José Roberto Afonso.

Publicado neste mês, estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que o custo da hora de trabalho deve aumentar 7,84% se a jornada for reduzida para 40 horas.

Nos últimos anos, vários países reduziram a jornada de trabalho e passaram a discutir uma semana com menos de dias de trabalho.

Na Grã-Bretanha, ao testar a semana de quatro dias de trabalho, houve queda de 65% no número de dias de licença médica e redução de 57% na probabilidade de um funcionário pedir demissão.

“À medida que o trabalhador está mais descansado, isso impacta o absenteísmo”, afirma Otto Nogami, professor do Insper. “Você passa a ter menor absenteísmo. Pode ser que haja menor rotatividade e maior engajamento, porque o trabalhador, com mais tempo para o lazer, tende a se sentir mais feliz.”

Em Portugal, a jornada de trabalho foi reduzida de 44 horas para 40 horas, em 1996. Depois da mudança, houve um aumento de 9,2% no custo do trabalho por hora, mas também um crescimento de 7,9% na produtividade por hora.

Entre os fatores que contribuíram para o aumento da produtividade estão a melhora na qualidade do trabalho, com trabalhadores mais descansados, e o processo de reorganização produtiva das companhias. (Com informações do jornal O Estado de S. Paulo)

 

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