Sexta-feira, 01 de maio de 2026

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No rancho fundo

O compositor carioca Lamartine Babo, carioca da Tijuca, foi o compositor dos hinos dos principais clubes de futebol do Rio de Janeiro. Do Madureira, Bangu, Vasco da Gama, Botafogo, Flamengo e Fluminense e do seu amado América.

Lamartine desde a infância sempre gostou da música. Quando jovem foi trabalhar na empresa Light. Pego em flagrante pelo chefe batucando um samba na mesa de trabalho, foi demitido. Lamartine resolveu viver da música, sua paixão e seu maior sonho.

Na música conheceu a boêmia e a vida desregrada. Por volta de 1931 depois de anos de tantos exageros, mal de saúde, por recomendação médica, foi para o interior de São Bento do Sapucaí, em Minas Gerais, tratar de uma possível pneumonia.

Ficou isolado em uma fazenda bem afastada, sem nada pra fazer e sem bares, farras e boêmias, restou-lhe apenas relembrar a vida agitada das noites cariocas. Alguns meses isolado do mundo voltou curado.

Na mesma semana de seu retorno foi convidado pelo amigo e compositor Ary Barroso a assistir a apresentação, no Teatro Recreio, do lançamento da música “Na grota funda”, do próprio Ary Barroso e com letra de José Carlos Brito e Cunha.

A letra.

Na grota funda,

na virada da montanha,

só se conta uma façanha

do mulato da Raimunda.

Matou a nega

com um pedaço de canela

e, depois, sem mais aquela

foi juntá c’uma galega.

Ela morreu

na virada da montanha,

vai havê outra façanha

esse mulato vai sê meu!

Esse mulato

vai fazendo o que ele qué,

já matou duas muié

porque bamba ele é de fato.

Se não morreu,

vou mansá esse cachorro,

na virada, ali do morro,

esse mulato vai sê meu.

Lamartine assistiu a apresentação e não gostou da letra (acho que ninguém). Inconformado, pois a música era muito bonita, e naquela noite mesmo, começou a escrever outra letra.

Não resta dúvida que influenciado pelo tempo em que ficou isolado interior de Minas, na melancolia e nas noites pacatas que viveu as saudades do Rio de Janeiro e a boêmia.

Com a nova letra pronta, e sem comunicar o amigo Ary Barroso, o próprio Lamartine interpretou a música com nova letra em seu programa de rádio acompanhado pelo “Bando dos Tangarás”, no programa “Horas Lamartinescas” na PRB-7, Rádio Educadora do RJ.

Foi um sucesso!!! E é sucesso até hoje!!

Obrigado, Lamartine Babo!

Por ter salvo a bela melodia e a reputação do Ary Barroso e nos dar esse presentão, um verdadeiro “hino”, símbolo do cancioneiro sertanejo!

Ao ler a letra de “No Rancho fundo”, quase dá pra ver Lamartine Babo entediado no sertão mineiro.

No rancho fundo

Bem pra lá do fim do mundo

Onde a dor e a saudade

Contam coisas da cidade

No rancho fundo

De olhar triste e profundo

Um moreno canta as mágoas

Tendo os olhos rasos d’água

Pobre moreno

Que de noite no sereno

Espera a lua no terreiro

Tendo um cigarro por companheiro

Sem um aceno

Ele pega na viola

E a lua por esmola

Vem pro quintal desse moreno

No rancho fundo

Bem pra lá do fim do mundo

Nunca mais houve alegria

Nem de noite nem de dia

Os arvoredos

Já não contam mais segredos

E a última palmeira

Já morreu na cordilheira

Os passarinhos

Hibernaram-se nos ninhos

De tão triste esta tristeza

Enche de trevas a natureza

Tudo porque

Só por causa do moreno

Que era grande, hoje é pequeno

Para uma casa de sapê

Se Deus soubesse

Da tristeza lá da serra

Mandaria lá pra cima

Todo o amor que há na terra

Porque o moreno

Vive louco de saudade

Só por causa do veneno

Das mulheres da cidade

Ele que era

O cantor da primavera

E que fez do rancho fundo

O céu melhor que tem no mundo

Se uma flor desabrocha

E o sol queima

A montanha vai gelando

Lembra o cheiro da morena.

* Rogério Pons da Silva – jornalista e empresário (rponsdasilva@gmail.com)

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