Sexta-feira, 01 de maio de 2026
Por Redação Rádio Liberdade | 16 de abril de 2026
O compositor carioca Lamartine Babo, carioca da Tijuca, foi o compositor dos hinos dos principais clubes de futebol do Rio de Janeiro. Do Madureira, Bangu, Vasco da Gama, Botafogo, Flamengo e Fluminense e do seu amado América.
Lamartine desde a infância sempre gostou da música. Quando jovem foi trabalhar na empresa Light. Pego em flagrante pelo chefe batucando um samba na mesa de trabalho, foi demitido. Lamartine resolveu viver da música, sua paixão e seu maior sonho.
Na música conheceu a boêmia e a vida desregrada. Por volta de 1931 depois de anos de tantos exageros, mal de saúde, por recomendação médica, foi para o interior de São Bento do Sapucaí, em Minas Gerais, tratar de uma possível pneumonia.
Ficou isolado em uma fazenda bem afastada, sem nada pra fazer e sem bares, farras e boêmias, restou-lhe apenas relembrar a vida agitada das noites cariocas. Alguns meses isolado do mundo voltou curado.
Na mesma semana de seu retorno foi convidado pelo amigo e compositor Ary Barroso a assistir a apresentação, no Teatro Recreio, do lançamento da música “Na grota funda”, do próprio Ary Barroso e com letra de José Carlos Brito e Cunha.
A letra.
Na grota funda,
na virada da montanha,
só se conta uma façanha
do mulato da Raimunda.
Matou a nega
com um pedaço de canela
e, depois, sem mais aquela
foi juntá c’uma galega.
Ela morreu
na virada da montanha,
vai havê outra façanha
esse mulato vai sê meu!
Esse mulato
vai fazendo o que ele qué,
já matou duas muié
porque bamba ele é de fato.
Se não morreu,
vou mansá esse cachorro,
na virada, ali do morro,
esse mulato vai sê meu.
Lamartine assistiu a apresentação e não gostou da letra (acho que ninguém). Inconformado, pois a música era muito bonita, e naquela noite mesmo, começou a escrever outra letra.
Não resta dúvida que influenciado pelo tempo em que ficou isolado interior de Minas, na melancolia e nas noites pacatas que viveu as saudades do Rio de Janeiro e a boêmia.
Com a nova letra pronta, e sem comunicar o amigo Ary Barroso, o próprio Lamartine interpretou a música com nova letra em seu programa de rádio acompanhado pelo “Bando dos Tangarás”, no programa “Horas Lamartinescas” na PRB-7, Rádio Educadora do RJ.
Foi um sucesso!!! E é sucesso até hoje!!
Obrigado, Lamartine Babo!
Por ter salvo a bela melodia e a reputação do Ary Barroso e nos dar esse presentão, um verdadeiro “hino”, símbolo do cancioneiro sertanejo!
Ao ler a letra de “No Rancho fundo”, quase dá pra ver Lamartine Babo entediado no sertão mineiro.
No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade
Contam coisas da cidade
No rancho fundo
De olhar triste e profundo
Um moreno canta as mágoas
Tendo os olhos rasos d’água
Pobre moreno
Que de noite no sereno
Espera a lua no terreiro
Tendo um cigarro por companheiro
Sem um aceno
Ele pega na viola
E a lua por esmola
Vem pro quintal desse moreno
No rancho fundo
Bem pra lá do fim do mundo
Nunca mais houve alegria
Nem de noite nem de dia
Os arvoredos
Já não contam mais segredos
E a última palmeira
Já morreu na cordilheira
Os passarinhos
Hibernaram-se nos ninhos
De tão triste esta tristeza
Enche de trevas a natureza
Tudo porque
Só por causa do moreno
Que era grande, hoje é pequeno
Para uma casa de sapê
Se Deus soubesse
Da tristeza lá da serra
Mandaria lá pra cima
Todo o amor que há na terra
Porque o moreno
Vive louco de saudade
Só por causa do veneno
Das mulheres da cidade
Ele que era
O cantor da primavera
E que fez do rancho fundo
O céu melhor que tem no mundo
Se uma flor desabrocha
E o sol queima
A montanha vai gelando
Lembra o cheiro da morena.
* Rogério Pons da Silva – jornalista e empresário (rponsdasilva@gmail.com)