Terça-feira, 02 de junho de 2026

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Menos cigarro e mais álcool: estudo prevê queda no tabagismo, mas consumo de bebida vai disparar no Brasil

Um estudo publicado neste mês na revista científica The Lancet Regional Health indica que o Brasil vai alcançar as metas de tabagismo e de redução do consumo regular de bebidas adoçadas com açúcar até 2030. Por outro lado, o cenário vai piorar para a ingestão de álcool, obesidade, diabetes e hipertensão. Além disso, a prática de atividade física e o consumo de frutas e verduras, embora melhorem, ainda continuarão distantes das metas do país.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Núcleo de Pesquisa em Epidemiologia das Doenças Crônicas da Universidade Federal de São Paulo (CRÔNICAS/Unifesp) e do Ministério da Saúde. As projeções foram realizadas com base nos números de 643.196 adultos que responderam o Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), uma pesquisa anual conduzida pela pasta da Saúde nas capitais do país, entre 2009 e 2023.

As metas foram calculadas com base nos objetivos de evolução dos indicadores estabelecidos pelo Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil, 2021-2030, em relação à prevalência observada em 2019. Entre elas, reduzir o consumo de bebidas adoçadas em 30%, o tabagismo em 40% e o consumo abusivo de álcool em 10%, e aumentar a atividade física no lazer e o consumo recomendado de frutas e hortaliças em 30%.

Após realizar as projeções, os pesquisadores concluíram que o Brasil deve viver uma queda no tabagismo, saindo de 9,8%, em 2019, para 4,7%, em 2030 – não apenas alcançando, como superando a meta de redução em 30,1%. Em relação às bebidas adoçadas, o consumo deve cair de 15% para 3,2%, também excedendo a meta, em 162%.

As boas notícias param por aí. O consumo episódico excessivo de álcool deve subir de 18,8% para 21,3%, desviando-se da meta em 133%, com aumentos mais acentuados entre mulheres. Já o consumo de frutas e verduras, embora passe por um crescimento modesto, de 22,9% para 24,5%, vai representar apenas 23,3% da meta. O mesmo ocorre para a atividade física no lazer, que deve aumentar de 39% para 45,3%, somente 53,8% da meta.

Como consequência, as doenças crônicas não transmissíveis devem manter a tendência de alta. A obesidade deve aumentar de 20,3% para 28,3%, mais de 1 a cada 4 brasileiros. Isso representa uma alta de 29,4%, enquanto a meta do Brasil é interromper o crescimento. A prevalência de diabetes deve subir de 7,4% para 10,9%, uma alta de 47,3%, e a de hipertensão arterial passar de 24,5% para 27,3%, crescimento de 11,4%, também fora da meta.

Além disso, os autores destacam que mesmo as projeções positivas, relacionadas ao consumo de bebidas adoçadas e ao tabagismo, demandam cautela. Em relação às bebidas, citam que políticas públicas como tributação, rotulagem frontal, proibições de publicidade e restrições de venda em escolas podem ter contribuído para a melhora, além de uma maior conscientização sobre os danos dos produtos. No entanto, a análise mostrou que o período mais recente, de 2015 a 2023, apresentou sinais de estagnação na tendência.

O mesmo vale para o tabagismo. Eles citam que políticas de controle do tabaco de longa data no Brasil, como proibição de publicidade, tributação, ambientes livres de fumo e advertências sanitárias com imagens, contribuíram para a queda ao longo do tempo. No entanto, evidências recentes sugerem uma possível estabilização na queda do tabagismo.

— Esse é um estudo de predição, que usa dados do passado para tentar predizer o futuro. Então o cenário pode mudar dependendo de mudanças na sociedade. E vemos que, considerando períodos mais recentes, há sinais de estagnação na melhora do tabagismo e de bebidas adoçadas. Isso está muito associado à estagnação de políticas nesse período. No caso do cigarro, isso é mais claro porque não temos um ajuste da alíquota sobre ele desde 2016, e o Vigitel mais recente, de 2024, já detectou uma alta de tabagismo — diz Jacqueline Wahrhaftig, autora do estudo, doutoranda em Saúde Coletiva na Unifesp e pesquisadora do CRÔNICAS/Unifesp.

Já em relação aos outros indicadores, os autores citam entraves como adesão baixa a políticas de redução de consumo de álcool, com lacunas na definição de preços e regulamentação de marketing, e elevado custo de alimentos saudáveis.

— É um cenário bastante complexo e multifatorial, que envolve questões como acesso. Quando falamos em consumo de frutas e hortaliças e atividade física, por exemplo, o ambiente impacta muito. A pessoa que trabalha menos horas, mora em áreas com mais espaços para exercício, que tem maior poder aquisitivo, vai conseguir adquirir alimentos mais saudáveis e se exercitar mais — afirma Jacqueline. Com informações do portal O Globo.

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