Domingo, 02 de agosto de 2026

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Lula e Milei, Bolsonaro e Fernández: entenda como fica a relação entre Brasil e Argentina, com presidentes que se atacam

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu colega argentino Javier Milei têm trocado farpas desde o início do governo do polêmico líder do país vizinho. Trata-se, porém, de uma relação conturbada desde 2019. Na eleição argentina daquele ano, o então chefe do Executivo brasileiro, Jair Bolsonaro, declarou apoio ao candidato conservador Mauricio Macri, que disputava a reeleição. E que acabou derrotada por Alberto Fernández.

Após a vitória de Fernández, Bolsonaro evitou cumprimentá-lo e fez críticas públicas ao governo argentino. Além disso, não foi à posse em Buenos Aires nem enviou representante, quebrando assim uma tradição diplomática bilateral.

Apesar das relações estremecidas, as divergências entre os presidentes não tem impedido Brasil e Argentina de continuar uma parceria estratégica. Os países avançaram em pautas de interesse comum no comércio, em especial no Mercosul, e em outras áreas.

Especialistas afirmam que a integração econômica entre os dois países faz com que eventuais crises políticas entre os presidentes não necessariamente se transformem em rupturas nas relações de Estado.

Professora de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Denilde Holzhacker destaca que a convocação do embaixador brasileiro na Argentina, para prestar esclarecimentos e discutir a relação entre os dois países, faz parte dos ritos diplomáticos tradicionais.

Pablo Quirno, embaixador argentino no Brasil, também já afirmou em entrevistas que os países não pretendem levar as questões políticas para o plano institucional e prático. Segundo a professora Denilde, a repercussão do episódio pode variar conforme a resposta do governo argentino ao gesto brasileiro: “Existe uma estratégia do Milei, e até do Trump, de fazer acusações que só inflamam o discurso”.

Apesar da insatisfação demonstrada, a especialista avalia que temas estratégicos, como as relações comerciais e o Mercosul, não são afetados pela relação conturbada dos presidentes, já que negociações e acordos de cooperação seguem uma lógica de interesse entre os países.

Ela explica que o governo brasileiro adota uma estratégia de responder às críticas sem ampliar os conflitos, mas busca contestar declarações consideradas ofensivas.

No episódio mais recente de tensão com Milei, Lula chegou a declarar: “Quem é esse cara?”, em resposta a uma pergunta sobre Milei. O presidente brasileiro também já afirmou que o argentino fez “uma patacoada” e que não respondeu para preservar sua posição de chefe de Estado.

“A própria Argentina já tinha questionado o papel do Mercosul. Mas, até pela proximidade com o Trump, o próprio Milei sabe das dificuldades que teria para acessar o mercado europeu sem o acordo. É uma guerra de narrativa, para as redes sociais, mas do ponto de vista prática não tem tantos efeitos”, avalia a professora.

O professor Antônio Jorge Ramalho, de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), avalia que o presidente argentino busca protagonismo nas redes sociais, falando para a sua bolha: “Milei ultrapassou os limites do respeito às instituições e ao povo brasileiro”.

“Palhaço”

A relação entre Brasil e Argentina ganhou destaque na última semana por causa de declarações polêmicas de Javier Milei na convenção do Partido Liberal que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro à eleição. Milei fez críticas a Lula e o chamou de “presidiário”.

Também valorizou a chamada “onda azul” na América do Sul – termo usado para falar do avanço de governos e candidatos de direita e centro-direita na região – e chamou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de “lixo careca”.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reagiu às declarações e chamou o presidente argentino de “palhaço” e argumentou que a Argentina apresenta indicadores mais desfavoráveis, como risco-país, dívida pública e inflação mais elevados que o Brasil.

Depois da repercussão, o ministro disse que a declaração havia sido uma iniciativa pessoal e não representava uma posição oficial do governo, mas justificou a resposta afirmando que Milei havia criticado a política econômica brasileira e autoridades do País.

Já o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), classificou Milei como uma “caricatura patética” e disse que o presidente argentino é um “puxa-saco” de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. “Suas declarações não são levadas a sério”, acrescentou.

As manifestações de Durigan e Boulos, no entanto, foram alvo de críticas reservadas de integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty, que avaliaram que as respostas adotaram um tom semelhante ao utilizado por Milei e se afastaram da linha diplomática defendida pelo governo brasileiro.

(com informações de O Globo)

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