Segunda-feira, 02 de novembro de 2026
Por Redação Rádio Liberdade | 1 de novembro de 2026

A literatura sempre ocupou lugar central na trajetória de Luiz Coronel, mas em Testemunha Ocular ela adquire uma dimensão ainda mais íntima. Publicada pela Editora AGE, a obra transforma a experiência da perda progressiva da visão em reflexão poética sobre memória, imaginação, tempo e resistência. Em suas 126 páginas, o escritor gaúcho convida o leitor a percorrer um território onde as limitações físicas não reduzem a capacidade de criação, mas a ampliam por meio da palavra.
O livro reúne poemas produzidos em diferentes momentos da vida do autor e atravessados por acontecimentos que marcaram os últimos anos, como a pandemia e as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. Sem recorrer à autopiedade, Coronel constrói uma obra marcada pela observação do cotidiano, pela delicadeza dos afetos e pela busca de sentidos diante das transformações impostas pela passagem do tempo. Ao longo dos versos, o leitor encontra um autor que transforma as próprias fragilidades em matéria literária e reafirma o poder da linguagem como instrumento de permanência.
Um dos aspectos mais significativos de Testemunha Ocular está em seu processo de criação. Em razão das dificuldades visuais enfrentadas pelo escritor, todos os poemas foram ditados e posteriormente transcritos pela equipe editorial. A circunstância confere uma camada adicional à obra, aproximando-a da tradição oral da poesia e demonstrando que a criação literária é capaz de encontrar novos caminhos mesmo diante das adversidades. Não por acaso, Coronel costuma lembrar a observação de Jorge Luis Borges segundo a qual os poetas, assim como os cegos, conseguem ver no escuro.
A capa do livro, assinada por Flávio Wild, reproduz a pintura O Homem Cego, de Gustav Klimt, criando uma conexão direta com o tema que atravessa a publicação. O projeto gráfico dialoga com uma obra que não trata apenas da deficiência visual, mas também das formas alternativas de percepção que a arte, a memória e a imaginação tornam possíveis.
Mais do que um lançamento literário, Testemunha Ocular também se destaca pelo compromisso com a acessibilidade. Além da edição impressa convencional, a obra está disponível em formato digital, audiolivro e braile. Durante a Feira do Livro de Porto Alegre, exemplares da edição em braile serão distribuídos gratuitamente para pessoas cegas e com baixa visão, iniciativa que amplia o acesso à literatura e reforça a importância da inclusão no mercado editorial. Em um país onde a oferta de títulos acessíveis ainda é limitada, a ação confere à publicação um alcance que vai além do valor estritamente literário.
A presença de Coronel na Feira do Livro não se limita aos autógrafos. No dia 3 de novembro, às 18h, o autor apresenta o espetáculo Luiz Coronel Poeta e Compositor, no Teatro Petrobras Carlos Urbim, na Praça da Alfândega. A montagem reúne poesia, música e literatura em um percurso pela produção artística construída ao longo de décadas. No palco, Coronel estará acompanhado por Sérgio Rojas, Pirisca Grecco, Daniel Torres, Isabela Fogaça, Janaína Maia, Deborah Finocchiaro, Fera Carvalho Leite, Diogo Barcelos, Miguel Tejera e Alexandre Olly, artistas que darão voz e interpretação a diferentes momentos de sua obra.
O espetáculo evidencia uma característica marcante da trajetória de Coronel: a capacidade de transitar entre linguagens. Conhecido pelo trabalho como poeta, escritor, compositor e publicitário, ele construiu uma produção que ultrapassa os limites do livro e alcança a música, o teatro e a cultura popular. Essa vocação para o diálogo entre diferentes formas de expressão também está presente em Testemunha Ocular, obra que se alimenta da experiência pessoal para alcançar questões universais.
Com mais de 90 títulos publicados e uma carreira reconhecida por leitores, críticos e instituições culturais, Luiz Coronel acrescenta à sua bibliografia um livro que sintetiza maturidade artística e experiência de vida. Em tempos de hiperestimulação visual, Testemunha Ocular propõe um movimento inverso: olhar para dentro. Seus poemas sugerem que enxergar talvez não dependa apenas dos olhos, mas também da memória, da imaginação e da capacidade de encontrar significado naquilo que permanece quando quase tudo parece desaparecer. É justamente essa perspectiva que faz da obra um dos destaques da atual edição da Feira do Livro de Porto Alegre. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)