Quinta-feira, 05 de novembro de 2026
Por Redação Rádio Liberdade | 5 de novembro de 2026
A história do pensamento econômico ensina que nenhuma teoria possui o monopólio da verdade. Keynes revolucionou a economia ao defender a intervenção do Estado para enfrentar a Grande Depressão. Décadas depois, Milton Friedman demonstrou os limites de algumas de suas formulações, especialmente na relação entre inflação e desemprego. Ambos estavam certos em aspectos fundamentais. Ambos também estavam incompletos.
Um artigo recente do economista Amol Agrawal, sobre a evolução da macroeconomia, mostra como ideias aparentemente inconciliáveis acabaram contribuindo para a construção de modelos mais sofisticados. A economia avançou porque seus grandes pensadores tiveram coragem de questionar consensos e humildade para reconhecer os limites das próprias teorias.
Essa perspectiva ajuda a compreender a controvérsia provocada por André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, ao propor uma mudança profunda na condução da política monetária brasileira.
Lara parte de uma constatação difícil de contestar: os juros brasileiros são extraordinariamente elevados e o custo de carregamento da dívida pública consome recursos gigantescos. Sua tese vai além. Ele sustenta que os juros elevados, utilizados para combater a inflação, também contribuem decisivamente para o desequilíbrio fiscal que supostamente deveriam ajudar a corrigir.
Sua proposta envolve uma redução programada da Selic, metas fiscais e monetárias coordenadas e uma nova estrutura institucional. É uma mudança de paradigma que desafia a maneira convencional de compreender a relação entre juros, inflação e dívida pública.
As reações, como esperado num país machucado por experimentos econômicos heterodoxos, foram imediatas. Economistas como Marcos Lisboa questionam a segurança de experimentar uma receita cujos resultados ainda não foram suficientemente demonstrados. A preocupação de Lisboa é legítima. Uma economia não é um laboratório onde propostas inovadoras possam ser testadas sem critério. Os custos recaem sobre empresas, trabalhadores e famílias.
Edmar Bacha representa outra perspectiva importante nessa discussão. Sua defesa da disciplina fiscal, da credibilidade institucional e da necessidade de reformas estruturais encontra respaldo em experiências históricas. Lara Resende, por sua vez, questiona se os instrumentos convencionais continuam adequados às particularidades da economia brasileira.
A questão é que o diagnóstico de Lara pode conter contribuições relevantes sem que sua prescrição esteja necessariamente correta. Juros elevados agravam o custo da dívida, mas uma redução imposta de cima para baixo pode provocar desvalorização cambial, inflação e exigência de prêmios ainda maiores pelos investidores.
O debate entre Keynes e Friedman demonstrou que a economia evolui quando a realidade obriga as teorias a se corrigirem. A própria macroeconomia contemporânea incorporou elementos das duas tradições, reconhecendo a importância das expectativas, das instituições, da política monetária e da atuação do Estado.
Lara Resende merece ser ouvido, não porque suas propostas estejam necessariamente certas, mas porque uma economia que convive há tanto tempo com juros elevados precisa estar disposta a questionar suas próprias convicções. Seus críticos também merecem atenção, sobretudo quando exigem evidências, consistência institucional e avaliação dos riscos.
O próximo governo Lula terá de enfrentar essa escolha em um ambiente político delicado, no qual decisões econômicas equivocadas poderão comprometer rapidamente a confiança e a governabilidade.
O maior erro seria transformar uma discussão econômica complexa em uma disputa ideológica, na qual cada lado defende suas certezas e desqualifica o adversário.
Keynes e Friedman provavelmente discordariam sobre muitas das soluções apresentadas hoje para o Brasil. Mas a história de suas contribuições deixa a advertência de que a economia não avança quando uma teoria vence o debate. Avança quando o debate nos aproxima da realidade.
(Instagram: @edsonbundchen)