Quarta-feira, 09 de setembro de 2026

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Fígado, cérebro, pâncreas: como os músculos influenciam o funcionamento dos órgãos

Os músculos e o fígado trabalham juntos e conversam o tempo todo. Em vez de palavras, trocam mensagens químicas.

Uma mesma proteína que inibe o crescimento dos músculos também afeta o fígado. É a miostatina, que pode atuar sobre as células do fígado ligadas à cicatrização e à fibrose hepática. Não à toa, a quantidade e a qualidade do músculo de um paciente são consideradas indicadores de gravidade e a evolução de doenças hepáticas.

Outra função muscular importante é de detox. O fígado é o órgão primário encarregado de neutralizar a amônia — um subproduto neurotóxico do metabolismo das proteínas. Ele a converte em ureia para ser eliminada na urina.

Porém, quando o fígado falha (como na cirrose), o músculo esquelético assume o papel de principal sistema de emergência do organismo. Ele usa a enzima glutamina sintetase para capturar a amônia circulante e transformá-la em glutamina.

Como consequência, pessoas que sofrem de sarcopenia perdem essa segunda linha de defesa desintoxicante. Se tiverem problemas hepáticos, haverá acúmulo de amônia no sangue e disparará o risco de encefalopatia hepática, coma e morte.

Detox poderoso

Os músculos também participam ativamente do metabolismo. Eles captam o excesso de gordura do sangue proveniente da alimentação e a transformam em energia.

Ao fazer isso, impedem que a gordura se acumule e intoxique órgãos vitais como o fígado e o coração. Dessa forma, evitam inflamações e doenças metabólicas.

Há outras conexões. Dentre elas, o controle do açúcar. Fígado e músculo são os dois principais depósitos de glicogênio (reserva de açúcar) do corpo humano. Os músculos guardam cerca de 80% de todo o glicogênio do corpo, pois quando estão saudáveis e ativos, capturam o excesso de açúcar circulante pós-refeição.

Ao fazer isso, reduzem drasticamente a necessidade do pâncreas de produzir insulina em excesso. Isso alivia o estresse sobre o fígado, evitando que ele precise converter a sobra de glicose em gordura (triglicerídeos).

Invasão de gordura

Uma das condições que o estudo investiga está a mioesteatose. Ela se caracteriza pelo acúmulo de gordura infiltrada dentro do tecido muscular. A mioesteatose é um indicador da perda de qualidade de um músculo.

E a gordura pode se infiltrar nos músculos de mais uma forma. Pode ser intermuscular, quando se acumula entre os feixes musculares. E é intramiocelular, quando gotículas de gordura são estocadas dentro das células musculares.

A gordura intramiocelular atrai células de defesa chamadas macrófagos e libera substâncias inflamatórias diretamente no tecido muscular. Isso piora a resistência à insulina e acelera a degradação de proteínas úteis.

A mioesteatose está presente em três de cada quatro casos de doença hepática avançada, como cirrose hepática ou insuficiência hepática crônica. Está ligada à gravidade da doença e reduz a sobrevida. Em quadros graves de Covid-19, também aparece como fator independente de pior prognóstico.

Inimigo disfarçado

O terrível da mioesteatose é que ela se esconde ou se disfarça de músculo saudável. E não à toa estudos como o da UFRJ a elegem como um dos alvos.

A mioesteatose pode ocultar a sarcopenia. A pessoa pode apresentar um volume muscular aparentemente normal, mas o músculo está infiltrado de gordura e sem funcionalidade. É um problema comum na obesidade.

Se não bastasse, a mioesteatose escapa dos exames de sangue convencionais. O diagnóstico é feito por exames de imagem, para medir a densidade do tecido muscular.

Alerta precoce

Na mesma linha de pesquisa, cientistas da Universidade de Lanzhou, na China, descobriram que alterações na gordura visceral e na massa muscular são indicadoras de complicações da cirrose.

Num estudo publicado na revista Hepatobiliary Communications, eles apresentam padrões específicos do tecido muscular e adiposo que podem ser detectados por tomografias comuns e sinalizam o agravamento da cirrose, mesmo antes do surgimento de sintomas.

A principal autora do estudo, Xiaoyue Zhang, disse que mudanças na gordura visceral e na massa muscular têm significados de alerta totalmente diferentes dependendo do estágio da cirrose.

Força do bem

As pesquisas não buscam somente identificar riscos. A ativação dos músculos pode reprogramar células do fígado e prevenir o surgimento de doenças. Um estudo de cientistas brasileiros mostrou que o desenvolvimento de massa muscular por meio de musculação pode reprogramar as células do fígado e combater a resistência à insulina associada à obesidade.

Liderado por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o estudo foi publicado na revista Life Sciences. Ele foi realizado com camundongos, mas pavimenta o caminho para tratamentos com humanos.

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