Domingo, 12 de julho de 2026

Domingo, 12 de julho de 2026

Ausência dos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados em evento do Planalto expõe tensão de Congresso com Lula, e governo sinaliza trégua

A cerimônia de sanção da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, tratada pelo Planalto como um gesto simbólico para tentar reorganizar a relação com o Congresso, foi marcada por duas ausências significativas em meio à crise. Convidados para o evento desta quarta-feira, os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não foram ao Palácio do Planalto, justamente no momento em que o governo enfrenta seu período mais crítico de tensão com o Legislativo neste terceiro mandato de Lula.

Apesar das tensões, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, disse que o caminho do governo é trabalhar “pelo distensionamento e pelo diálogo”.

A chefe da articulação política ainda afirmou que Motta e Alcolumbre avisaram que não iriam ao ato com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto.

— Já esperávamos as ausências. Tinham nos comunicado que não viriam.

Gleisi afirmou ainda que pretende apostar no diálogo com a cúpula do Congresso.

— Temos de trabalhar pelo distensionamento e pelo diálogo. É o que vamos fazer — disse a ministra ao GLOBO.

Pela manhã, a assessoria de Motta informou que o deputado cumpriria “agenda interna” e não participaria do evento. A decisão, porém, não impediu o presidente da Câmara de publicar nas redes uma mensagem celebrando a sanção e exaltando a “união dos Poderes”, num tom institucional que contrasta com o ambiente real de desgaste.

“Este é o resultado da união dos Poderes em favor do Brasil. Com respeito às atribuições legislativas, diálogo e equilíbrio, o país avança”, escreveu Motta e seu perfil no X.

No Senado, Alcolumbre também optou por se ausentar. O gesto ocorreu no auge do atrito com o governo devido à indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga de ministro do STF deixada por Luís Roberto Barroso. Esta escolha contrariou o presidente da Casa e levou ao rompimento com o líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA).

Alcolumbre considera que o Planalto atropelou a articulação política e reagiu colocando em votação uma “pauta-bomba”: aprovou um projeto que estabelece aposentadoria integral e paritária para agentes comunitários de saúde (ACSs) e agentes de combate às endemias (ACEs). O governo estima um impacto de R$ 100 bilhões em dez anos.

O senador sinalizou também que não atuará para proteger o governo na disputa do PL Antifacção e ainda marcou a sabatina de Messias na CCJ para 10 de dezembro, em um intervalo curto que pode dificultar o giro político do indicado entre os senadores.

Apesar da ausência, Alcolumbre divulgou uma nota, na qual celebrou a sanção do projeto.

“Justiça tributária não é um conceito distante. É vida real. É o Brasil dizendo que enxerga, respeita e protege quem mais precisa. Hoje celebramos a sanção do PL da Isenção do Imposto de Renda, uma conquista histórica que nasce do diálogo maduro e do compromisso do Congresso Nacional com um país mais justo. A nova lei corrige distorções antigas, leva alívio para milhões de famílias brasileiras e inaugura um sistema tributário mais solidário: quem ganha menos, paga menos; quem ganha mais, contribui mais. Estamos celebrando mais do que uma lei. Celebramos um pacto: o de construir um futuro em que cada brasileira e cada brasileiro tenha mais dignidade, mais oportunidade e mais esperança. O Brasil quer e pode ser um país mais justo. E estamos trabalhando para isso”

A ausência simultânea dos dois presidentes reflete um acúmulo de atritos que, pela primeira vez, se manifestam de forma coordenada nas duas Casas.

Na Câmara, o ponto de ruptura foi o desgaste entre Hugo Motta e o líder do PT, Lindbergh Farias (RJ). A relação já vinha tensionada desde a PEC da Blindagem e piorou na votação do projeto antifacção, quando Motta escolheu um opositor, Guilherme Derrite, para a relatoria.

A situação se agravou com a fuga de Alexandre Ramagem (PL-RJ) para os Estados Unidos — episódio em que petistas passaram a acusar Motta de leniência com o deputado condenado na trama golpista. O mal-estar levou integrantes da bancada a pedirem desculpas, mas selou um distanciamento.

No entorno de Lindbergh, a percepção é a de que Motta vinha adotando uma postura “complacente” com o Centrão desde a PEC da Blindagem, ao não atuar para frear um texto criticado pelo governo. Os petistas também passaram a afirmar que o presidente da Câmara fazia “vista grossa” a processos contra Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli no Conselho de Ética, que, segundo ele, avançam lentamente para evitar tensionamento com o PL.

A retirada de pauta da MP alternativa ao aumento do IOF, no dia da caducidade, reforçou também a impressão de que Motta não colocaria peso em pautas estratégicas do Planalto. Com informações do portal O Globo.

Voltar

Compartilhe esta notícia:

Pautas-bomba no Congresso podem custar mais de R$ 100 bilhões aos cofres públicos em dois anos
Governo sanciona projeto do setor elétrico. Aprovação teve 13 vetos
Ocultar
Fechar
Clique no botão acima para ouvir ao vivo
Volume

No Ar: Programa O Som dos Gaúchos