Terça-feira, 28 de abril de 2026
Por Redação Rádio Liberdade | 28 de abril de 2026
As mulheres, por natureza, tendem a ser mais românticas. E não foram poucas as que já me fizeram a mesma pergunta, quase sempre em tom sincero, às vezes até confuso: “Mas, afinal, o que é o amor?”
Talvez a dúvida exista porque hoje o amor foi sequestrado por uma estética.
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Você verá casais sorrindo em pores do sol filtrados, viagens, restaurantes, declarações intensas, promessas embaladas por músicas perfeitas.
Parece que, quando o amor chega, tudo entra automaticamente em harmonia e que a vida dos outros é sempre melhor do que a sua.
Mas a vida real não tem filtro. Ela tem boleto. Tem cansaço. Tem discussão por causa de louça, toalha molhada na cama… e aquelas mágoas pequenas que, quando não resolvidas, viram silêncio desconfortável.
E é justamente aí que muita gente se perde… porque confunde amor com sentimento.
Aquela euforia do começo, o frio na barriga, a dopamina nas alturas… isso tem nome: paixão. E a paixão oscila.
Desaparece e reaparece como o tempo em um dia de praia. É química. É biologia. É o corpo reagindo. Mas amor… é outra coisa.
O amor começa quando o encanto diminui. Amar é olhar para alguém no meio da rotina sem filtro, sem trilha sonora e ainda assim dizer, mesmo que em silêncio: “Eu conheço teus defeitos… e escolho ficar.”
E, por mais curioso que pareça, até aquilo que antes incomodava, às vezes vira detalhe suportável, ou até um charme silencioso aos olhos de quem decidiu amar.
Não é poesia. É decisão. É continuar ao lado quando o outro não está na melhor versão. Quando o tempo passa, quando o corpo muda, quando a vida pesa.
É ter paciência quando o mais fácil seria ir embora. É escolher conversar quando o orgulho pede distância.
Amar é menos sobre sentir e mais sobre sustentar aquilo que você decidiu construir. Quem espera sentir para agir vira refém da própria biologia.
Quem escolhe, constrói. E construir a dois não é leve o tempo todo. É um exercício de resistência… não de velocidade.
É entender que, em muitos momentos, não existe “eu estou feliz”. Existe “nós estamos tentando”.
Casais que duram não são os que não brigam. São os que entendem que estão do mesmo lado. É vocês contra o problema… nunca um contra o outro.
Às vezes, o amor aparece em gestos simples: um café feito sem pedir, um abraço depois de uma discussão ou o esforço de ouvir, mesmo quando já se está cansado.
Não parece grandioso. Mas é exatamente isso que sustenta tudo. Porque, no fim, o amor não está nas grandes declarações. Ele está na repetição silenciosa da escolha. Todos os dias.
E, sim, haverá momentos em que vai parecer que tudo se perdeu. Que não existe mais sintonia, nem cumplicidade.
Mas, muitas vezes, isso não é o fim. São ruídos. São fases. E é justamente nesses momentos que o casal precisa decidir, juntos, buscar solução, seja em uma boa conversa, seja em ajuda externa, terapia ou qualquer caminho que preserve o vínculo.
Porque mais importante do que estar bem o tempo todo é não soltar a mão no meio do caminho. Lembre-se dos votos. Lembre-se do porquê vocês escolheram um ao outro.
Então, talvez a pergunta não seja mais: “Eu ainda sinto o mesmo?”
Mas, sim: “Eu ainda escolho essa pessoa mesmo sabendo exatamente quem ela é?”
Porque quando a escolha permanece, o amor deixa de ser acaso, deixa de ser promessa bonita, deixa de ser só sentimento e passa a ser construção. Porque, no fim, amar é uma construção.
* Tatiane Dias Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante