Domingo, 18 de outubro de 2026

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Adoção de pets: amor não falta, lares preparados ainda são desafio

Brasil lidera intenção de adotar animais, mas dúvidas sobre saúde, adaptação e custos seguem como barreiras para uma adoção responsável; no Rio Grande do Sul, centenas de cães e gatos resgatados ainda aguardam uma família

O desejo de adotar um animal de estimação nunca foi tão forte entre os brasileiros. Em um cenário marcado pelo aumento da conscientização sobre abandono e bem-estar animal, o País aparece na liderança mundial quando o assunto é disposição para acolher cães e gatos. Mas a mesma pesquisa que revela esse avanço também expõe um desafio persistente: transformar boa vontade em adoções responsáveis e duradouras.

Levantamento realizado pela Mars em parceria com a Censuswide, que ouviu 26 mil pessoas em 14 países, mostra que 19% dos brasileiros afirmam estar prontos para adotar um pet neste momento, percentual significativamente superior à média global de 12%.

Mais do que um indicador estatístico, o dado reflete uma mudança cultural. A adoção passou a ocupar espaço central na relação entre pessoas e animais de estimação, impulsionada por campanhas de conscientização, pelo trabalho de organizações de proteção animal e pela crescente valorização dos pets como integrantes da família.

Os brasileiros também demonstram familiaridade acima da média com o processo de adoção. Segundo o estudo, 76% afirmam entender como ele funciona, contra 64% no cenário global.

Apesar disso, a decisão ainda vem acompanhada de inseguranças. Um em cada cinco entrevistados diz que teria mais confiança para adotar caso pudesse contar com orientação especializada durante a jornada.

O resultado reforça uma percepção compartilhada por veterinários, protetores independentes e organizações do setor: adotar é um gesto de amor, mas também um compromisso que exige preparação.

A principal preocupação está relacionada à saúde dos animais. Entre os brasileiros ouvidos pela pesquisa, 36% apontam o histórico médico desconhecido como o maior desafio para a adoção. Questões ligadas aos custos, à adaptação à nova rotina e à convivência com outros pets também figuram entre os receios mais frequentes.

Entre jovens de 18 a 34 anos, a integração com outros animais aparece como uma preocupação ainda mais relevante, mostrando que a construção de um ambiente equilibrado dentro do lar é parte importante da decisão.

Para a diretora de Assuntos Corporativos da Mars Pet Nutrition no Brasil, Katia Souza, a informação é fundamental para ampliar o sucesso das adoções. “A adoção responsável começa antes mesmo da chegada do pet à nova casa. Por isso, queremos entender o que aproxima e o que ainda gera dúvidas nas pessoas que consideram adotar, usando essas informações para tornar essa jornada mais clara e segura.”

A realidade observada nos abrigos confirma essa necessidade. Muitos cães e gatos chegam aos locais de acolhimento após situações de abandono, maus-tratos ou longos períodos vivendo nas ruas. Em diversos casos, o processo de adaptação requer acompanhamento veterinário, paciência e compreensão do histórico emocional do animal.

No Rio Grande do Sul, a adoção ganhou ainda mais importância após as enchentes que atingiram o Estado. Dados do governo gaúcho indicam que milhares de cães e gatos foram resgatados durante a tragédia climática e passaram a depender de abrigos temporários e redes de proteção. Atualmente, a plataforma SOS Rio Grande do Sul mantém animais disponíveis para adoção e destaca que “milhares de cães e gatos ainda estão esperando por um lar”.

O desafio permanece significativo. Levantamentos divulgados após a emergência climática apontaram que mais de 10 mil animais chegaram a ser socorridos durante as enchentes. Meses depois, cerca de 1,2 mil cães e gatos continuavam aguardando adoção em abrigos gaúchos, enquanto entidades relatavam queda na procura por novos tutores.

O estudo da Mars revela que os brasileiros reconhecem a importância do suporte profissional ao longo dessa jornada. Entre os tutores consultados, 68% afirmam confiar nos médicos-veterinários para receber orientações sobre alimentação, percentual superior à média global de 57%.

A experiência com a adoção também já faz parte da trajetória de milhões de pessoas. Entre brasileiros de 25 a 34 anos, 65% afirmam ter adotado um animal em abrigo ou ONG. Entre aqueles com 55 anos ou mais, o índice é de 40%.

A pesquisa mostra ainda que fatores externos influenciam diretamente a qualidade da convivência entre pessoas e pets. Para 24% dos entrevistados, modelos de trabalho mais flexíveis facilitariam os cuidados diários. Outros 27% gostariam de contar com mais espaços pet friendly nas cidades.

Os números mostram que a adoção responsável não termina quando o animal deixa o abrigo. Saúde, alimentação, comportamento, adaptação e acompanhamento profissional continuam fazendo parte da construção de um vínculo duradouro.

Em um país que lidera a intenção de adoção no mundo, a principal mensagem da pesquisa é clara: o amor continua sendo o ponto de partida. Mas é a informação que transforma um gesto de solidariedade em uma história permanente.

Para um animal resgatado, encontrar uma família significa deixar para trás o abandono e a incerteza. Para quem adota, representa assumir um compromisso de longo prazo, construído diariamente por meio do cuidado, da dedicação e da responsabilidade.

É nesse encontro entre afeto e preparo que nasce a verdadeira adoção. E é justamente ali que começa uma nova vida, para os dois lados da porta. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)

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