Quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Por Redação Rádio Liberdade | 21 de setembro de 2026
Em uma eleição equilibrada, o Eurasia Group tem argumentado que a qualidade da campanha eleitoral será um fator decisivo. Neste quesito, Flávio Bolsonaro tem se destacado até aqui, o que ajuda a explicar o empate técnico contra Lula nas simulações de segundo turno e a chance cada vez mais remota de uma surpresa como Augusto Cury, Ronaldo Caiado ou Renan Santos.
Normalmente, a campanha tem importância secundária para o resultado eleitoral. Fatores estruturais, como a taxa de aprovação do governo, são mais úteis para prever o vencedor do que o teatro dos candidatos em debates, entrevistas e propaganda. Este ano, porém, é diferente, porque esses indicadores apontam uma eleição praticamente empatada. Em um ambiente assim, fatores menores podem desequilibrar a disputa. É isso que está acontecendo, por enquanto, com a diferença de qualidade nas campanhas.
O contexto tem favorecido Flávio. A crise no STF alimenta um desejo por mudança em um eleitorado desencantado com a política. Apesar das conexões entre Flávio e Daniel Vorcaro e dos escândalos que continuam a atingir aliados e colegas de partido, o noticiário confere alguma vantagem ao filho do ex-presidente em comparação com Lula.
Mas a diferença entre a campanha de Flávio e a dos demais candidatos não se explica apenas pelo contexto. O marketing é de qualidade superior. O senador tem sido disciplinado em discursos e programas eleitorais, com mensagens relativamente bem focadas em três aspectos: apresentar o candidato como uma versão mais jovem e moderna do pai, enfatizar o medo do crime e culpar Lula pelo alto custo de vida. Segurança pública e endividamento são temas relevantes para o eleitor e criam facilmente uma conexão entre o candidato e o público.
Lula tem tido mais dificuldades de articular os motivos pelos quais deveria ter mais quatro anos de mandato. Suas peças listam programas do governo, do Desenrola ao Pé-deMeia, mas não passaram ainda a ideia clara de um futuro melhor. É difícil entender porque a campanha não investiu, ainda, em materiais de forte apelo emocional para defender a redução da jornada de trabalho.
A comparação fica mais discrepante com os outros candidatos. Caiado não conseguiu aproveitar o tempo de TV para se destacar; fez peças tradicionais, que conseguiram manter seu nome no radar, mas não geraram uma fagulha de curiosidade no eleitor. Suas chances dependem cada vez mais de um fato extraordinário, que enfraqueça Flávio e renove a busca por nomes alternativos.
Se essa tendência do início da campanha seguisse sem mudanças, Flávio assumiria a liderança das pesquisas. Mas não se pode prever isso com segurança, porque as campanhas se ajustam, e Lula começa a reagir. Dois pontos merecem atenção nas próximas semanas: eventuais ataques contra Flávio que poderão colocá-lo na defensiva; e novas iniciativas do governo, depois do reajuste-surpresa do Bolsa Família. (Silvio Cascione – diretor da consultoria Eurasia Group)